Quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Serviço Geológico do Brasil acompanha vazante extrema na bacia do rio Paraguai

Monitoramento indica cotas entre as mínimas históricas ao longo dos rios e na região do Pantanal. Níveis tão baixos só foram registrados há 50 anos

A vazante do rio Paraguai em 2020 está registrando cotas próximas das mínimas históricas em diversos pontos ao longo da bacia hidrográfica. É o que indica o monitoramento do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM). Neste momento, a situação mais crítica é registrada em Cáceres (MT), onde o nível do rio Paraguai, desde o dia 10/06 vem marcando a cada dia valores mínimos recordes na estação fluviométrica de mesmo nome.

Patamar extremamente baixo e semelhante a outros pontos do rio Paraguai e dos seus afluentes rio Cuiabá e rio Taquari, incluindo a região do Pantanal. Comparando com o histórico de monitoramento na região, a vazante deste ano aproxima-se das vazantes observadas no período entre os anos de 1968 e 1973, ou seja, faz 50 anos que não se registravam níveis tão baixos no rio Paraguai.

No último boletim semanal, divulgado no dia 11/09, o prognóstico é que o processo de vazante acentue-se nas próximas semanas, com as cotas mínimas previstas para outubro. Saiba mais sobre o último boletim: https://bit.ly/2H7SWAK

Infográfico com a cota atual e a mediana, que representa o comportamento normal do rio nesta época do ano, nos principais municípios da bacia do rio Paraguai Na estação fluviométrica de Cáceres (MT) a cota registrada no dia de hoje, 16/09, foi de 56 centímetros, atingindo o menor valor de nível d’água já registrado neste dia, considerando todo o histórico de dados da estação. Usualmente esse momento é classificado como sendo o minimum minimorun, expressão em latim que significa o menor dos menores ou o mínimo dos mínimos, o que no caso da estação de Cáceres, corresponde ao registro do menor valor do nível d’água em 55 anos de monitoramento.

Em Ladário (MS), município vizinho a Corumbá, a cota atual registrada na estação fluviométrica foi de 28 centímetros. A última vez em que o nível do rio esteve próximo a este valor, durante este período do ano, foi em 1973. Em 2019, o rio nesta época estava três metros mais elevado. São três metros abaixo da mediana (3,30m). A variação do comportamento do nível d’água nessa estação ao longo de 2020, está situada entre os 13 menores registros de toda a série histórica com 120 anos de dados. Com base nos dados desta estação, a Marinha do Brasil estabelece restrições para navegação no rio Paraguai, isto aconteceu desde que o nível ficou inferior a 1,5 metros.

Em Porto Murtinho (MS), a situação é similar, apesar das chuvas que incidiram principalmente nessa região da bacia no final do mês de agosto, a cota atual atingiu 1,67 metros, entretanto, esse nível d’água também se encontra a mais de três metros abaixo da mediana, o que significa que em anos normais o rio costuma estar três metros acima da cota que está hoje.

De acordo com o pesquisador da CPRM, Marcelo Parente Henriques, a situação preocupa, pois a tendência geral é de avanço da vazante do rio Paraguai, que sofre com uma das maiores secas já registradas na região. Ele relata que desde o mês de maio, o monitoramento dos níveis dos rios já indicava a tendência de uma seca severa. “No final de junho, quando ocorrem os picos das cheias na região, neste ano, a bacia do rio Paraguai já apresentava cotas de nível dos rios muito abaixo do normal em Cáceres, Porto Conceição, Ladário, Porto Murtinho e Cuiabá, o que já sinalizava para a possibilidade de ocorrência de uma vazante mais rigorosa”, lembrou.

O pesquisador explica que quando nos meses de junho ou julho, o nível d’água na régua de Ladário atinge cota igual a quatro metros considera-se que houve cheia. No ano atual, o nível máximo que o rio Paraguai atingiu, chamado pico da cheia, foi apenas 2,06 m na estação de Ladário. “O comportamento da água ao se deslocar pelo território do Pantanal, chamada de onda de cheia, é fundamental para entender a interação do nível do rio com o ambiente da região. Em 1988, atingiu 6,64m e o rio Paraguai expandiu seu leito alcançando 20 km de largura na região de Corumbá, cenário muito diferente do que ocorreu neste ano”, ressaltou.

Dados do Cemaden indicam que a seca deste ano é a mais severa do período de 22 anos da série do Índice Padronizado de Precipitação na sub-bacia do alto Paraguai e do bioma Pantanal.

O Serviço Geológico do Brasil realiza o monitoramento das cheias e vazantes do rio Paraguai, através do registro os níveis d’água na região do Pantanal, uma das maiores extensões de áreas alagadas do planeta, desde 1994. O Sistema de Alerta Hidrológico do rio Paraguai possui sete estações fluviométricas ao longo de seu curso, localizadas entre as cidades de Cáceres-MT e Porto Murtinho-MS.

 Comportamento do rio Paraguai durante anos com vazante extrema em Cáceres (MT) ACOMPANHAMENTO DAS CHUVAS - Embora os volumes de chuvas reduzidos sejam típicos deste período do ano, de acordo com o pesquisador Marcus Suassuna nos últimos meses as chuvas vêm ocorrendo significativamente abaixo do normal, provocando uma estiagem severa. “A combinação de uma sequência de anos com chuvas abaixo da média com uma seca extrema no atual ano de 2020 explicam os níveis bastante reduzido dos rios na bacia do rio Paraguai”, afirma.

O pesquisador explica que em 2020, o rio Paraguai está apresentando um comportamento semelhante ao ocorrido no final dos anos 60 e destaca que os dados mostram que depois dos anos 1980, o rio Paraguai tem apresentado estabilidade dos níveis, até os últimos anos apresentar essa tendência de redução.

“A estação localizada em Cáceres tem apresentado os níveis mais baixos registrados no histórico de monitoramento. Em Ladário, os níveis são comparáveis a seca entre 1968 e 1973. Isso é resultado de chuvas que têm registrado uma tendência de diminuição ao longo dos últimos 20 anos. Esse cenário, somado a chuvas significativamente abaixo do normal em 2020, resultou nesta seca bastante severa que atinge o Pantanal”, explica Marcus. “Na média da bacia do rio Paraguai, as chuvas previstas para os próximos 15 dias não são tão elevadas, mas pontualmente elas podem ser, o que indica que pode haver elevações em rios da região ao longo desse período e talvez a seca possa estar alcançando seu período final”, informa.

O Serviço Geológico do Brasil utiliza informações de chuvas estimadas por satélite, a partir do estimador de chuva MERGE, fornecidos pelo INPE. Além disso, o Índice de Seca Padronizada dos últimos nove meses (SPI-9), estimado pelo INPE, também indica uma seca classificada como de intensidade extrema no Mato Grosso do Sul.

BOLETINS SEMANAIS - O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) divulga semanalmente o Boletim de monitoramento e previsão do Sistema de Alerta Hidrológico da bacia do rio Paraguai para o período de vazante em 2020. O estudo apresenta as cotas atuais dos rios, a previsão para os próximos dias, a data provável em que ocorrerá o pico da seca para municípios de MT e MS e o prognóstico de chuvas para os 15 dias seguintes.

REDE HIDROMETEROLÓGICA NACIONAL - Os dados hidrológicos utilizados são provenientes da Rede Hidrometeorológica Nacional de responsabilidade da Agência Nacional de Águas (ANA), operada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e demais parceiros. As previsões realizadas pelos engenheiros da CPRM são baseadas em modelos hidrológicos e estão sujeitas às incertezas inerentes aos mesmos. Os dados de previsão de chuvas são provenientes do Centro de Previsão Climática da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (CPC/NOAA) e são usadas ainda informações de previsões meteorológicas produzidas pelo CPTEC/INPE.

SAIBA MAIS SOBRE O SAH PARAGUAI - Tanto no período de estiagem quanto na época de cheia, o Sistema de Alerta da Bacia do Rio Paraguai (Pantanal) realiza o monitoramento dos rios Paraguai, Cuiabá, Aquidauana, Miranda e Coxim, nos municípios de Corumbá, Ladário, Porto Murtinho, Anastácio, Aquidauana, Bonito, Coxim e Miranda (MS) e Cáceres, Cuiabá e Santo Antônio do Leverger (MT), com previsão hidrológica para os municípios: Porto Murtinho, Ladário e Corumbá (MS) e Cáceres (MT). O sistema abrange os Estados do Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, atendendo uma população de 1.024.281 habitantes. A Bacia do Rio Paraguai tem uma área 1.095.000 km² (33,8% no Brasil, 32,4% no Paraguai, 18,7% na Bolívia e 15,1% na Argentina).


Projeção para as vazantes nos rios da bacia do rio Paraguai

Janis Morais
Assessoria de Comunicação
Serviço Geológico do Brasil - CPRM
asscom@cprm.gov.br
janis.morais@cprm.gov.br
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