Terça-feira, 07 de julho de 2020

Intercâmbio internacional apresenta primeiros resultados para montagem do maior laboratório de Geocronologia da América Latina em convênio com a Petrobras

As rochas mais antigas do planeta, a evolução continental do NE do Brasil e possíveis implicações no setor mineral e de energia do país são algumas das atuações do geocientista da CPRM Carlos Ganade como pesquisador convidado da Universidade de Berna na Suíça. Esse período de troca de conhecimento representa etapa para montagem do complexo de laboratórios em geocronologia e isotopia a ser instalado no Serviço Geológico do Brasil no Rio de Janeiro.

Investigar a origem do universo é um dos questionamentos mais instigantes da comunidade científica mundial. O Grande Colisor de Hádrons, maior acelerador de partículas do mundo, é um exemplo do esforço da Ciência para buscar respostas. Mas além da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, a Suíça sedia outras importantes instituições de pesquisa. Entre elas, o Instituto de Ciências Geológicas da Universidade de Berna, onde o pesquisador-chefe do Centro de Desenvolvimento (CEDES) do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Carlos Eduardo Ganade, vai desenvolver seus estudos neste ano e colaborar com outros renomados cientistas em busca de novas descobertas sobre as rochas mais antigas do nosso planeta.

Medir com exatidão a idade de minerais e relacionar estas idades a um processo ou evento geológico é a missão dos pesquisadores da área de geocronologia e isótopos estáveis. Na Universidade de Berna, um dos pesquisadores mais proeminentes do Serviço Geológico do Brasil, Carlos Eduardo Ganade está desenvolvendo várias frentes de atuação como pesquisador convidado do Grupo de Geologia Isotópica. A principal delas é a evolução continental do NE do Brasil. No entanto, visando aproveitar ao máximo a oportunidade de acesso a outros pesquisadores importantes e laboratórios de ponta, dedica-se também a outros temas como, por exemplo, a evolução termodinâmica da porção norte da Província Mineral de Carajás (https://www.geo2.unibe.ch/personen/team_ifg_detail_e.php?PID=93728119).

Ano passado, Ganade foi um dos 12 cientistas selecionados para receber apoio do Instituto Serrapilheira (instituição privada de fomento à pesquisa). Mas este é apenas um dos projetos que ele coordena no Serviço Geológico do Brasil, dentro do CEDES e que financiam as atividades de pesquisa na Suíça. Os recursos estão associados aos projetos do Instituto Serrapilheira “Quando múltiplos continentes colidem”, do CNPq “O registro da Terra primitiva em zircões Hadeanos do Craton São Francisco” e da Petrobras/SGB “Herança orogênica no controle de bacias continentais associadas a abertura do Atlântico no nordeste do Brasil”. Além dos recursos provenientes para financiamento da pesquisa, dispõe de uma bolsa do programa estratégico da CAPES para despesa com os custos de acomodação e saúde.

Pesquisador formado pela Universidade Estadual de Campinas (2006) e doutorado em Ciências, na área Geotectônica Geoquímica, pela Universidade de São Paulo (2014), Ganade faz elogios à estrutura encontrada em Berna. Ele também comemora a rápida adaptação na Suíça e a boa relação com outros pesquisadores que está permitindo responder questões importantes das geociências relacionados aos projetos do CEDES.

“O Instituto de Ciências Geológicas aqui é completo com vários laboratórios e experts em uma vasta área da Geologia. O interessante é que a interação não fica restrita ao Instituto que me hospeda. Devido à facilidade de transporte público trabalho também com pesquisadores da Universidade de Lausanne, onde trabalho na sonda iônica (SIMS) analisando minerais como granada, zircão, monazita para determinações de suas composições isotópicas. Também colaboro com pesquisadores do ETH Zurich na datação U-Pb de carbonatos de zonas de falha, além de assistir alguns cursos sobre modelagem computacional em geodinâmica”, relata.

PRIMEIROS RESULTADOS – As pesquisas em andamento começam a chegar aos primeiros resultados, que destacam a sua importância no avanço do conhecimento. “Em âmbito internacional estamos chegando a conclusões importantes sobre a dinâmica interna de arcos magmáticos continentais, como os atuais Andes, em uma comunicação que está sendo submetida a um jornal de alto impacto. Essas conclusões afetam toda a comunidade geocientífica global que trabalham em arcos magmáticos, importantes por se tratar de lugares onde boa parte dos recursos metálicos são formados” avalia.

Ganade destaca ainda outro assunto de interesse para a comunidade internacional: o início da história do nosso planeta. “As informações isotópicas derivadas de zircões entre 3,8 a 4,2 bilhões fazem parte do quebra-cabeça de como nosso planeta se formou. Zircões do cráton São Francisco, na Bahia, podem ajudar a contar parte dessa história”, salientou sobre a linha de pesquisa em geologia isotópica que depende de informações que basicamente só podem ser acessadas em minerais como o zircão, já que a alternativa em relação a rochas com idades maiores que 4 bilhões de anos só são encontradas em um único lugar remoto no Canadá. Este projeto ainda conta com a colaboração de pesquisadores da Universidade de Tóquio onde Ganade esteve por um mês em dezembro de 2018.

“Dentro da temática acerca da evolução do planeta também estamos trabalhando com rochas que marcam o início da tectônica de placas moderna a partir de 600 milhões de anos atrás. Essas amostras de rochas eclogíticas registram condições de pressão (elevada) e temperatura (baixa) somente observadas em cadeias de montanhas modernas como as dos Alpes Suíços, onde me encontro. Entender esse cenário de transição do mecanismo de placas tectônicas para subducções mais frias a partir de 600 milhões de anos atrás tem implicações importantes para entender as mudanças climáticas e evolução da vida na Terra neste período”, ressaltou Ganade. (veja o artigo recente na Brazilian Jounal of Geociences).

RELEVÂNCIA PARA O PAÍS – Além da importância em âmbito internacional, a expectativa em relação a todos os projetos é obter novas informações sobre a evolução geológica do NE do Brasil, com aplicações nas áreas de metalogênese em Óleo & Gás. “Em relação à metalogênese estamos demostrando com os projetos que grande parte dos depósitos minerais da Província Borborema está relacionado ao desmembramento do Cráton São Francisco a Sul da Província. Esta informação é importante para um entendimento de primeira ordem de como as empresas podem programar seus projetos de exploração e, parte desses resultados foram divulgados para algumas empresas em palestras convidadas’, comentou

Outra frente na metalogênese vem da modelagem termodinâmica e petrocronológica da parte Norte da Província Mineral de Carajás com amostras de furos de sondagem de depósitos de cobre-ouro (um deles de classe mundial), coletados em 2016. Na área de Óleo & Gás, o projeto em parceria com a Petrobras deve trazer novas intepretações acerca da evolução durante o Cretáceo no NE do Brasil, por meio de estudos de modelagem geodinâmica termo-mecânica da litosfera deformada durante a abertura do Atlântico em associação com a análise estrutural em campo casada com datação dos eventos deformacionais.

CENTRO DE REFERÊNCIA - Pesquisador em Geociências do Serviço Geológico do Brasil desde 2007, Ganade ressalta que a contribuição do programa de pesquisa na Suíça vai além do resultado prático e científico dos projetos em si. Na opinião do cientista, a grande importância para o Serviço Geológico do Brasil está na experiência que deve ser implantada no futuro Centro de Referência em Geociências. “Este futuro centro deve permitir aos pesquisadores realizarem pesquisa de excelência na ponta do conhecimento com implicações na indústria e academia”, define.

O Centro de Referência em Geociências é um dos cinco projetos a serem financiados com recursos da Cláusula de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), que fazem parte do acordo de cooperação firmado pelo Serviço Geológico do Brasil com a Petrobras e a ANP em dezembro de 2019. O complexo reunirá laboratórios de geocronologia e isotopia de baixa e alta temperatura, necessário para inovar na pesquisa das bacias sedimentares, de forma a desenvolver os setores de óleo, gás e mineração. Os novos laboratórios, que vão colocar a CPRM em pé de igualdade aos mais importantes serviços geológicos mundiais, como USGS (USA), CSC (Canadá) e GA (Austrália), exigem treinamento internacional, etapa em andamento com a estadia do pesquisador Ganade na Suíça.

No bojo dessas novas vivências, Ganade pontua algumas diferenças que observou em relação ao trabalho de pesquisa científica no Brasil. “São inúmeras. A mais importante é o modo de abordagem. Como a definição clara do gap de conhecimento no qual sua contribuição pode realmente favorecer. No Brasil, de maneira geral, nas geociências o problema sempre está colocado de forma inversa em que a definição das questões a serem respondidas nem sempre são claras desde o início com a definição do gap de conhecimento”, avaliou.

Ganade comentou ainda sobre os desafios que o isolamento social está impondo ao trabalho de pesquisa. “A pandemia prejudicou o andamento da pesquisa no laboratório visto a restrição de proximidade das pessoas. O tempo foi então canalizado para organização de dados e redação de artigos. No entanto, as reuniões com as equipes dos projetos permaneceram ativas via internet. Apesar da distância física, mantenho a coordenação das pessoas envolvidas nos projetos (mais de 20 incluindo pesquisadores do CEDES e de instituições de pesquisas brasileira e internacionais)”, relatou.

Acrescentou o impacto para a família. “Nestes tempos o desafio não é o home-office. Acho que nas relações modernas de trabalho este pode ser feito sem prejudicar a produtividade com exceção dos trabalhos em laboratório (mesmo sendo possível controlar os equipamentos on-line), o que pega mesmo é o Family-office. Aqui eu e minha esposa, também pesquisadora no mesmo instituto, temos que dividir a nossa atenção com a pesquisa, com o tempo dedicado a prole, limpeza da casa, cozinhar, jogar o lixo e ainda nos divertir. As condições na Suíça já se normalizaram e há oito semanas tudo foi reaberto, incluindo a escola do meu filho e a universidade para pesquisa somente”. Por fim, o geólogo avaliou sobre a experiência do intercâmbio em um dos países mais interessantes da Europa: “A vida aqui é excelente. A Suíça é um pais magnífico”, comemorou.

Sala de controle SIMS (sonda iônica) Universidade de Lausanne

Visão do equipamento SIMS

Sala de controle SIMS (sonda iônica) Universidade de Lausanne

Espectrômetro de massa no ETH Zurich usado para datar carbonatos em falhas no projeto da PETROBRAS

Em trabalho de campo nos Alpes

Em um dos afloramentos mais famosos da Suíça – Inconformidade do embasamento Herciniano com rochas sedimentares da margem Europeia próximo a Interlaken.

Com pesquisadores e alunos da Universidade de Berna em Zermatt (Matterhorn no fundo)

Home office

Pillow lavas em facies eclogito em Zermatt

Tomógrafo em experimento de deformação da crosta na Universidade de Berna. Será utilizado para modelar a deformação no NE do Brasil no âmbito do Projeto da Petrobras

Alpes ao fundo a 2000 m próximo de casa Morgetepass

Levando o filho na escola
Janis Morais
Assessoria de Comunicação
Serviço Geológico do Brasil
janis.morais@cprm.gov.br
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