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Glossário  

ITAIMBEZINHO E FORTALEZA - Excursão virtual aos Aparados da Serra - RS
 

Geologia da borda sudeste da Bacia do Paraná

1- Posicionamento da área

A Bacia do Paraná-Etendeka recobre toda a porção centro-oriental da América do Sul, estendendo-se a até o noroeste da Namíbia, oeste do Continente Africano. Estas áreas apresentam características geológicas semelhantes nos dois continentes, sendo um dos argumentos utilizados como indicador da presença de um grande continente, pré abertura do oceano Atlântico e da deriva continental, denominado de Gondwana, cuja fragmentação iniciou-se ao redor dos 120 Ma (milhões de anos). 

Testemunhos desta separação estão presentes tanto na Bacia do Paraná quanto na de Etendeka, dos quais abordaremos aqueles relacionados aos episódios finais do preenchimento destas bacias e suas conexões com o rompimento do Gondwana, especialmente no que diz respeito ao deserto Botucatu e ao Magmatismo Serra Geral.
A Bacia do Paraná correspondente a porção Sul-Americana desta grande entidade geológica, recobrindo uma área de aproximadamente 1.6x106 km2.  A evolução desta bacia pode ser entendida em quatro grandes episódios (Almeida, 1981), cada um sendo característico de um ciclo tectono-sedimentar completo (Sloss, 1963).  
Os dois primeiros ciclos estão relacionados à sedimentação em uma bacia sinforme subsidente, e os dois últimos 
correspondendo às fases de

soerguimento e extrusão de grande quantidade de lavas toleíticas relacionadas ao intumescimento da crosta ocorrido ao redor de 135 - 120 Ma.                    
Cerca de 730.000 km2 da parcela brasileira desta Bacia estão recobertos pela
Formação Botucatu e pelos derrames relacionados ao Magmatismo Serra Geral, correspondentes às fases finais de preenchimento desta bacia, porção que atinge cerca de 1.700 metros de espessura junto ao seu depocentro, posicionado no oeste do Estado do Paraná.
A região dos Aparados da Serra está posicionada na borda sul-sudeste desta grande entidade geológica, Bacia do Paraná-Etendeka, correspondendo geograficamente a porção mais próxima da zona de continuidade com o continente Africano. É nesta posição que abordaremos uma seção geológica completa, iniciando nos sedimentos relacionados ao grande deserto de Botucatu, até o topo do vulcanismo Serra Geral, um dos maiores eventos vulcânicos ocorridos no planeta.

2- Geologia do intervalo Juro-cretácico da Bacia do Paraná

A implantação do deserto Botucatu, ciclo sedimentar final do preenchimento da Bacia do Paraná-Etendeka, iniciou-se por uma vasta superfície de deflação eólica que marcou o clímax da aridez desértica no interior desta Bacia, caracterizando um prolongado episódio de interrupção da sedimentação que vinha se desenvolvendo, associado a fenômenos de rearranjo da sua morfologia.

Compilado a partir do “Mapa de Integração Geológica da Bacia do Prata e Áreas Adjacentes - MERCOSUL - Schobbenhaus & Lopes (2001)”

A implantação das condições de abrasão eólica dentro da bacia acompanha uma tendência regional de desenvolvimento de fases distensionais e de soerguimentos a partir de Mesotriássico, e se insere temporalmente nos momentos iniciais do grande ciclo geotectônico que levaria a desagregação do Pangea, e a fragmentação dos continentes Africano e Sul-americano (Milani et al.1998, Scherer, 2000).

No topo da seqüência estratigráfica da Bacia do Paraná, a Formação Serra Geral demarca o término do episódio magmático eocretácico de preenchimento desta entidade geológica, correspondendo a um dos maiores eventos vulcânicos do planeta (vide Vulcanismo e Vulcões - Generalidades), o qual se encerra com a abertura do Atlântico Sul e ruptura do Gondwana, fragmentação esta gerada pela atuação da Pluma Mantélica de Tristão da Cunha, “motor” que mobilizou a separação dos continentes.  

O contato entre as areias do deserto Botucatu e os derrames de lavas do Serra Geral, em função da natureza distinta dessas rochas, configura uma não conformidade de ambientes geológicos, deserto vs vulcânico, mas mesmo assim existe uma relação transicional entre estes, dada a alternância entre estes ambientes, mantida durante um certo intervalo de tempo, entre o campo de dunas eólicas e os derrames de lavas. Esta transição estende-se até o total soterramento das areias pelas lavas, impedindo a manutenção e desenvolvimento do regime desértico após os primeiros eventos eruptivos.

Em diversas regiões, como em Santa Cruz-RS, pode-se observar a morfologia das dunas ainda perfeitamente preservadas, sendo recobertas progressivamente por vários fluxos extrusivos, assim como a presença de corpos eólicos lenticulares intercalados nos derrames inferiores da seção Serra Geral, materializando esta interdigitação basalto/arenito, elemento ilustrativo da coexistência temporal de ambos os sistemas. Esses elementos também constituem um importante critério cronológico para o estabelecimento da idade mínima do deserto de Botucatu; cuja idade mais jovem é a mesma da implantação do magmatismo Serra Geral (138 Ma).

                                    

Dom Feliciano
2.1. Substrato da Bacia - Domínio Dom Feliciano

A entidade geológica conhecida como Bacia do Paraná-Etendeka está estabelecida sobre um domínio de rochas de idade Neoproterozóica (650 a 540 Ma), composto por uma grande área de composição granito-gnáissica denominada como Província Mantiqueira, a qual estende-se ao longo da costa brasileira, desde o sul da Bahia até o Uruguai. Na porção sudeste desta Província, correspondendo ao Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ocorre um grande batólito de rochas graníticas multintrusivas e polifásicas, denominadas como Cinturão Dom Feliciano, que correspondem às rochas mais antigas da costa leste da bacia.

O Cinturão Dom Feliciano está constituído por rochas granito-gnáissicas deformadas, granitóides porfiríticos deformados, granitóides com foliação milonitica, e intrusões isótropas de composição monzo a sienogranítica, constituindo múltiplos eventos magmáticos de colocação meso a epizonal, até rochas subvulcânicas do Neoproterozóico, correspondendo a um intervalo de tempo entre 750 a 520 Ma.

Rochas granitóides do Complexo Dom Feliciano cortadas por 
diques da Formação Serra Geral.