Terça-feira, 13 de agosto de 2019

Serviço Geológico do Brasil completa 50 anos reconhecido como referência nos estudos das geociências

O Serviço Geológico do Brasil investigou e produziu um relatório sobre origens da instabilidade do bairro Pinheiro, em Maceió (AL)

O Serviço Geológico do Brasil desde a sua criação tem se dedicado ao estudo dos recursos minerais e à disponibilização desse conhecimento. As primeiras atividades foram mapeamento geológico e recursos minerais. Logo em seguida, o monitoramento dos recursos hídricos se tornou parte importante das atividades da empresa. Ao longo de sua história, suas funções se expandiram. A integração de profissionais e uma abordagem multidisciplinar possibilitou melhorar a capacidade de compreensão dos processos complexos das Ciências da Terra. Em cinco décadas, uma ampla gama de investigações científicas foi desenvolvida em apoio às políticas públicas do país voltadas à pesquisa mineral, à gestão de recursos hídricos, ao uso e conservação dos recursos naturais e à proteção da população contra desastres naturais.

A Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais foi criada em 1969, como Sociedade de Economia Mista, com objetivo de desenvolver e acelerar os levantamentos geológicos e incentivar a pesquisa mineral. Ao longo dos anos 70, foram desenvolvidos projetos em todas as regiões do país, que resultaram em importantes descobertas de depósitos de carvão, caulim, fosfato, turfa, gipsita, potássio, diamante, ouro, estanho, nióbio, níquel, cobre, zinco e chumbo. Estes resultados começaram a aparecer nos anos 80. Atualmente, cerca de 60% e 21% do território nacional estão mapeados nas escalas 1:250.000 e 1:100.000, respectivamente. “O carvão é um exemplo. O que se conhecia até os anos 70 é aproximadamente 10 a 15% do carvão que se conhece hoje. O resto foi descoberto pela CPRM naquele período em que o Governo investiu na pesquisa do carvão para substituir o óleo e amenizar a dependência do petróleo que estava em crise”, relata o diretor de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil, José Leonardo Andriotti.

Como responsável pela execução do primeiro estágio da cadeia da indústria mineral, o Serviço Geológico do Brasil é o braço operacional do Governo Federal para cartografia geológica de todo o território nacional. Isso significa alcançar os rincões distantes da geografia nacional, incluindo as áreas remotas do país, mesmo em condições amazônicas. Foi preciso superar adversidades naturais e contornar deficiências de infraestrutura rodoviária, com o uso de helicópteros, aviões monomotores, barcos de alumínio e pousadas rudimentares, conforme relembra o geólogo da CPRM Xafi da Silva Jorge João. “Desde a década de 70, a CPRM vem direcionando com prioridade as suas ações para a região Amazônica, uma das últimas fronteiras minerais do planeta a hospedar depósitos minerais de grandes volumes e altos teores, ou seja, depósitos de classe mundial. São essas condições amazônicas que marcam a CPRM como uma das instituições pioneiras no processo de integração territorial e cujas informações e conhecimentos gerados reforçam a soberania nacional”, destaca.

Na década de 70, na divisa do Pará com o Amapá, a CPRM, ao executar trabalhos de geologia em escala de semi-detalhe, identificou uma sequência metavulcanossedimentar na bacia do rio Ipitinga, com características de um greenstone belt. A região foi caracterizada como de alta potencialidade mineral e por indicação do Grupo Executivo para Região do Baixo Amazonas (GEBAM) tornou-se a Reserva Nacional do Cobre e seus Associados (Renca), com exclusivo direito de pesquisa pela CPRM. Lá, foram executados trabalhos de geofísica terrestre e sondagem rotativa, identificando níveis de rochas básico-ultrabásicas hidrotermalizadas com altas concentrações de sulfetos de ferro, cobre e níquel com ouro associado.

Geólogo Xafi da Silva Jorge João no local que servia de base logística e dormitório às margens do rio Carecuru, na bacia do rio Jari, fronteira do Pará com o Amapá, durante a execução do projeto Sudoeste do Amapá, que deu origem à área da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca).  Os geólogos José Lima da Costa e Xafi da Silva Jorge João na bacia do rio Oiapoque executando o projeto Norte da Amazônia-Domínio Oiapoque –Jari no início dos anos 70

O mesmo ocorreu na Região do Vale do Tapajós: a maior província aurífera do Brasil, com a execução de levantamentos geológicos em diferentes escalas. Um dos projetos com maior destaque, o Promin-Tapajós, dos anos 90, disponibilizou informações geológicas básicas para seleção de áreas e prioridades de investimentos para o setor mineral. Também no Pará, o Serviço Geológico do Brasil se dedicou na década de 80 ao estudo da maior província mineral polimetálica do planeta. Foram pesquisados diferentes depósitos minerais da região de Carajás por meio do Programa Grande Carajás.

Momento da partida para o trabalho de campo no rio Crepori, bacia do Tapajós. Nas “voadeiras”, todos os mantimentos, combustível e objetos de uso pessoal organizados Geólogos Reinaldo Soeiro, Djalma Xavier Lacerda, Amilcar Adamy e o técnico em geologia Raimundo, em maio de 1972, em Guaiará Merin, cidade boliviana na fronteira com a cidade de Guajará Mirim, no Brasil, prestes a mapear a mata amazônica pelo projeto Noroeste de Rondônia, primeiro a ser desenvolvido na unidade de Porto Velho  Mapeamento no rio Cotia, afluente do rio Madeira, de navegação difícil, os geólogos Luis Bernardo Lemos (português), Reinaldo Soeiro e Amilcar Adamy, juntamente com os auxiliares Sebastião Vieira (vulgo Tabuleiro) e Armando Morais (vulgo Peru) coletando informações para o projeto Sulfetos de Abunã, em 1974, de rochas metabásicas, cujos lateritos desenvolvidos continham partículas de ouro.

As descobertas de importantes jazidas no país nos anos 80 alavancaram o setor mineral do Brasil e evidenciaram a importância do mapeamento geológico realizado pela CPRM. Na época, além de mapear e identificar potencialidades, a empresa realizava a sondagem das áreas e podia requerer direitos minerários, resultando no patrimônio minerário que a empresa possui: um total, 376 direitos minerários pertencentes a 30 projetos. Estas áreas representam outra conquista recente da empresa, que ingressou no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), programa estratégico do Governo federal para impulsionar investimentos do setor privado em projetos prioritários. No dia 12 de julho, foi anunciada pelo ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, a publicação do primeiro edital, que trata da licitação de cessão de direitos minerários do Complexo Polimetálico de Palmeirópolis (TO), na modalidade de leilão, sob coordenação do Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

Nos anos 90, a CPRM foi transformada em empresa pública e recebeu as atribuições de Serviço Geológico do Brasil, ampliando suas atividades nas áreas de geologia e hidrologia e o desenvolvimento de estudos relacionados aos fenômenos naturais, como terremotos, deslizamentos, enchentes, secas, desertificação, além das áreas de paleontologia e geologia marinha. Nesta década tem início o processo de informatização da empresa, que permitiu inovações no processamento e disponibilização de dados e na geração de mapas com o Sistema de Informação Geográfica (SIG). Nesta época também foi criado o Programa de Levantamentos Geológicos Básicos (PLGB).

Nos anos 2000, teve início atuação intensa em geofísica aérea e geoquímica de semi-detalhe no Cristalino brasileiro. O investimento resultou em um grande avanço para o conhecimento dos recursos minerais no Brasil inteiro. A aerogeofísica é uma ação que atrai a iniciativa privada para o setor mineral. Os levantamentos aerogeofísicos magnetométricos e gamaespectométricos hoje recobrem cerca de 90% das áreas do embasamento. Ao mesmo tempo, criou-se o GeoBank, hoje denominado GeoSGB, com a disponibilização online dos dados e dos estudos desenvolvidos. Somente em 2018, foram lançados 45 relatórios finais de projetos, cerca de 250 mapas geológicos, geológico-geofísicos, metalogenéticos e prospectivos, além de bancos de dados de mais de 30 projetos. Todos os produtos disponíveis para download no GeoSGB. Assim como é possível acessar resultados de 395.000 amostras de sedimentos de corrente, concentrados de bateia e solo.

Equipe do Departamento de Gestão Territorial do Serviço Geológico do Brasil em local de deslizamento na região Serrana do Rio de Janeiro em 2011

A maior tragédia natural do Brasil registrada até hoje ocorreu em janeiro de 2011 deixou 916 mortos e 345 desaparecidos na região Serrana do Rio de Janeiro, comoveu o país e resultou na criação da Lei 12608/2012 que instituiu a Política de Proteção e Defesa Civil. A CPRM recebeu do Governo Federal a atribuição de realizar a identificação e setorização de áreas de risco. Atualmente, 1790 municípios já foram mapeados para identificar e delimitar áreas com potencial à ocorrência de processos geológicos capazes de gerar perdas de vidas e bens materiais. Estima-se que aproximadamente quatro milhões de pessoas vivem em áreas com condição de risco alto e muito alto. Além do mapeamento de risco, o Serviço Geológico do Brasil ficou responsável por implantar 13 Sistemas de Alerta Hidrológico com o objetivo de prevenir danos e preservar vidas em eventos de cheias. No total, são 16 bacias monitoradas com a emissão, com antecedência, de alertas para situação de enchentes que beneficiam uma população estimada de 7,7 milhões de pessoas.

Atuação estratégica – A segurança nacional e o crescimento econômico de um país dependem do conhecimento sobre os recursos naturais que possui. Portanto, identificar potencialidades minerais e garantir acesso às informações necessárias para pesquisa mineral são ações estratégicas. Para subsidiar a Política Nacional para os Recursos do Mar, a CPRM em parceria com a Marinha do Brasil, há uma década desenvolve um audacioso programa de pesquisa em geologia marinha na chamada Amazônia Azul, mar sob jurisdição brasileira e também em águas internacionais, numa região conhecida como Elevação do Rio Grande. Em 2015, a CPRM celebrou com a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) o primeiro contrato de um país do hemisfério Sul. Os estudos podem contribuir para ampliação da plataforma continental jurídica do Brasil para além das 200 milhas náuticas, ampliando a Zona Econômica Exclusiva do país.

Nos últimos anos, a CPRM desenvolveu pesquisas em recursos minerais estratégicos como potássio, fosfato, grafita, lítio, cobalto, diamante e ETR, além de estudos sobre remineralizadores de solo a partir de rejeitos de mineração. O Brasil tem reservas desses minerais estratégicos e há possibilidade de novas descobertas de potencialidades minerais para reforçar seu papel de importante produtor mineral mundial. Em relação a outros países, o Brasil se destaca pela grande geodiversidade. Se comparadas as áreas de escudos pré-cambrianos, que têm mais possibilidade de hospedar depósitos de metais, do Brasil com a Austrália e Canadá, se observa que o Brasil tem área semelhante à Austrália e o dobro do Canadá em extensão. Em 2013, o Canadá investiu 4,96 bilhões de dólares em pesquisa mineral, a Austrália, 2,96 bilhões e o Brasil apenas cerca de 645 milhões, isso representa menos de 12% do que o Canadá investiu, e mesmo com a metade da área do Brasil em Escudo, produziu três vezes mais. Ou seja, com mais investimentos é possível alavancar o setor mineral brasileiro que faturou em 2017, dos quais, US$ 32 bilhões. Deste total, US$ 19 bilhões pela exportação de minério de ferro. No total, 180 mil empregos diretos e 2 milhões de empregos indiretos.

Em 2019, quando está completando 50 anos, a atuação do Serviço Geológico do Brasil foi marcada por duas ações. Os estudos geológicos que explicam o fenômeno do afundamento de três bairros em Maceió e o monitoramento e previsão do deslocamento da pluma de lama de rejeitos do rompimento da Barragem Córrego do Feijão em Brumadinho. Foram intervenções emergenciais, que tornaram ainda mais evidente que a contribuição da CPRM para o país vai além da identificação do potencial mineral para geração de riquezas e que sua missão de gerar e disseminar conhecimento geocientífico com excelência, contribuindo para melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento sustentável do Brasil está sendo cumprida.

Divisão de Geologia Marinha da CPRM no navio Vital Oliveira na Expedição ProAmb para a Elevação do Rio Grande  Equipe do Serviço Geológico do Brasil recolhe amostras para o monitoramento da qualidade da água do rio Paraopeba após rompimento da Barragem em Brumadinho em janeiro  Janis Morais
Assessoria de Comunicação
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