Quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Especialistas debatem riscos do gás radônio à saúde como indutor de câncer

Evento realizado pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM) trouxe contribuições técnicas para fortalecer o Programa de Risco de Radônio do Brasil

Diretor-presidente Esteves Colnago abriu o evento destacando a importância da discussão para o fortalecimento do Programa de Risco de Radônio do Brasil
Especialistas em geociências, medicina e saúde pública do Brasil e da Irlanda debateram hoje (17), em palestra promovida pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), sobre os riscos do gás radônio, que é um elemento radioativo presente em minerais que compõem o solo, a água e as rochas, sendo o maior causa do câncer de pulmão após o tabagismo e o principal indutor da doença entre os não fumantes. Com transmissão ao vivo pelo YouTube, o evento contou com a participação do professor e pesquisador Quentin Crowley, da Trinity College Dublin. O palestrante compartilhou a experiência e dados da Irlanda, onde há um Mapa de Risco de Radônio elaborado e aponta os níveis de concentração no país.

Entre os moderadores temáticos, o geólogo Oderson Souza, do CEDES, falou sobre a estrutura do Programa de Risco de Radônio do Brasil O diretor-presidente do SGB-CPRM, Esteves Colnago, fez a abertura do evento e, em discurso, ressaltou a importância da discussão com as contribuições do pesquisador irlandês e dos especialistas convidados como moderadores temáticos. O gestor considerou a palestra como um encontro técnico fundamental no momento em que o Brasil desenvolve o seu Programa de Risco de Radônio sob a coordenação do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CEDES) do SGB-CPRM, com a participação de diversas instituições. "Se dúvidas é um momento importante não somente para a pesquisa, mas também para a saúde pública, visto que é um trabalho necessário para a avaliação da exposição da população brasileira ao elemento", disse Colnago.

Programa de risco do Brasil Geólogo do CEDES, Oderson Souza iniciou a apresentação com uma exposição sobre o Programa de Risco de Radônio do Brasil, que é constituído por pesquisadores e especialistas das áreas das geociências, medicina e saúde pública. Uma das metas do programa é integrar as temáticas em prol de um indicador de risco que aponte o nível de concentração de radônio no Brasil que aumenta as chances para o desenvolvimento do câncer de pulmão. Os mapas de exposição ao radônio e as informações epidemiológicas possibilitarão definir o quanto o radônio influencia no desenvolvimento da doença entre os brasileiros e, em contrapartida, auxiliar no planejamento mais assertivo das políticas de prevenção do câncer. Em números, o programa tem potencial para evitar que centenas de brasileiros sejam vitimados pela doença.

Ubirani Otero, do INCA, apresentou um breve panorama sobre o câncer no Brasil "Esse momento é importante para o embasamento do programa brasileiro. A partir do Mapa de Risco de Radônio e das relações entre câncer, e sua ocorrência nas diversas regiões do Brasil, poderemos criar planos de prevenção, regulações para mitigação das residências e planos nacionais e estaduais. Já temos áreas piloto em Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul, e que essas áreas foram cobertas pelos estudos de radiação ambiental levantadas por aviões. Esses estudos são preliminares, mas em breve teremos alguns resultados para apresentar", disse Oderson Souza.

O Programa de Risco de Radônio do Brasil é composto por pesquisadores renomados da Comissão Nacional de Energia Nuclear, Prefeitura de Poços de Caldas, Instituto do Câncer do Brasil, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, da Universidade Federal do Paraná, da Universidade Federal do Pampa, Universidade Positivo, Universidade Dom Bosco e Universidade Federal de Santa Catarina.

Panorama sobre o câncer Representando o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a epidemiologista e doutora em Saúde pública Ubirani Otero participou da palestra e apresentou um panorama sobre a doença no país, apontando o ranking dos tipos mais recorrentes de câncer no Brasil e as estimativas até 2021.

"Entre os homens, o câncer de pele é o mais incidente, mas em terceiro lugar está o câncer de pulmão e é o quarto em mulheres. Para o ano de 2021, a estimativa é de 30 mil e 200 casos nos casos de câncer de pulmão. Os estados da região sul e sudeste apresenta os maiores números de casos de câncer, tendo São Paulo com o maior percentual. De maneira geral, as região Sudeste lidera o ranking", pontuou ao mostrar gráficos.

Quentin Crowley apresentou detalhes sobre o Mapa de Risco de Radônio da Irlanda Em relação ao radônio, a profissional destacou que a mobilização em relação ao tema por parte do INCA foi iniciado em 2004, envolvendo todos os municípios da região Sul. Esse foi o único projeto de extensão regional envolvendo risco de radônio no país. A iniciativa foi constituída em etapas, englobando a vigilância do câncer, medições de radiação natural externa e interna, estudos epidemiológicos de morbidade e mortalidade e comunicação com o público.

"Trabalhamos em parceria com a secretaria do Estado, assim como outras secretarias. Trabalhamos com os fatores de risco para câncer e fatores risco químicos e biológicos. Organizamos fóruns de discussão, cartilhas, reuniões de treinamento com equipes e gestores sobre sensibilização e adesão ao projeto", contou Ubirani Otero.

A epidemiologista também reiterou a necessidade atenção ao risco do radônio. "Embora a gente saiba que existe um efeito cinético entre tabagismo e radônio, vale a pena registrar que a prevalência de tabagismo vem diminuindo ao longo dos anos . O tabaco ainda pode ter muita influencia, a pessoa que fuma está exposta e tem muito mais chances de ter câncer de pulmão. O radônio merece maior destaque, pois é a primeira causa de câncer de pulmão em não fumantes", completou a profissional do INCA.

Experiência da Irlanda O evento teve como palestrante principal o professor Quentin Crowley, que é diretor do Centro para o Meio Ambiente da Universidade Trinity College Dublin, teve participação no processo de atualização do Mapa de Risco de Radônio da Irlanda e é pesquisador nesta área. Durante a palestra, Crowley apresentou visão geral da pesquisa de radônio em seu país, abordando os conceitos básicos e incertezas, o mapeamento e metodologias de modelagem, fazendo relação com a política de proteção à saúde e a percepção de risco de radônio.

"O radônio (222Rn) é um poluente prejudicial que emana como um gás de rochas, solo e água, incolor e inodoro, detectado somente com a utilização de equipamentos especializados. O radônio pode se acumular dentro de imóveis e a exposição humana ao radioativo é associada a um risco elevado de se desenvolver câncer de pulmão. O gás classificado pela OMS como Classe I cancerígeno. Globalmente, é o segundo mais causa comum de câncer de pulmão após o fumo tabagismo, sendo a principal causa da doença em não fumantes", disse o palestrante.

De acordo com Crowley, a Irlanda tem uma concentração populacional média ponderada de radônio interno de 98 Bq/ m3, que é consideravelmente mais alta do que a média global (cerca de 40 Bq/m3). A exposição doméstica ao radônio causa aproximadamente 300 casos de câncer de pulmão na Irlanda anualmente, com um custo econômico estimado em mais 400 milhões de Euros ao ano, incluindo custos de saúde e perda de rendimentos.

"Na Irlanda, o teste de radônio nas casas das pessoas não é obrigatório por lei. Acredita-se que cerca de 10% da população da Irlanda esteja exposta a alto nível de radônio, mas menos de 4% das casas são testadas", afirmou o pesquisador.


Legislação Legenda A palestra do diretor da Trinity College Dublin também abordou o aspecto legal. Segundo ele, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) é o órgão governamental responsável pela proteção contra radiação, incluindo o radônio. O mapa mostrado durante a apresentação foi definido nas Normas de Construção da Irlanda e é baseado em um número relativamente pequeno de medições internas, sem nenhuma informação geológica. Grades de 10 x 10 km definem a probabilidade de alto radônio interno. Uma área onde mais de 10% das residências excedem 200 Bq/ m3 é denominada "área de alto radônio". Novas casas construídas nestes locais devem ter uma barreira de radônio, uma espécie de membrana impermeável.


Crowley esclareceu que as concentrações de radônio são altamente variáveis espacialmente e as medições internas podem ser demoradas, pois "exigem boa vontade dos proprietários das casas ou ocupantes do edifício".

Nossa resposta cognitiva e emocional ao risco do radônio não é totalmente compreendida. As pessoas tomam decisões sobre testes de radônio e remediação (mitigação) de uma forma complexa. É fácil ignorar algo que você não pode sentir. Um longo período de latência entre a exposição e os sintomas pode dar uma falsa sensação de segurança. Onde o teste é opcional, as taxas de aceitação são normalmente muito baixas. Cerca de 60% das pessoas que obtêm um resultado de teste de radônio alto não farão nada a respeito", alertou o palestrante.

O radônio é um “perigo natural” que tem um efeito negativo mensurável na saúde da população em geral, segundo destacou Crowley. "O teste de radônio interno é vital para saber as concentrações para a casa ou edifício individualmente. Mesmo que sejam encontrados altos níveis de radônio, é possível remediar e diminuir a exposição de longo prazo à radiação ionizante", orientou.

O palestrante afirmou também que a compreensão dos processos geológicos e o acesso a conjuntos de dados geológicos de alta qualidade são vitais para avaliar o perigo do radônio. "Várias opções estão disponíveis a fim de contribuir para um Plano de Ação Nacional e proteger a população em geral dos efeitos nocivos do radônio. Compreender a percepção de risco do radônio é a chave para aumentar as taxas de captação do teste e remediação do radônio", encerrou Quentin Crowley.

Ao final da apresentação, houve a intervenção dos moderadores temáticos com perguntas ao palestrante. Participaram o doutor em física Nivaldo Silva, que integra o Laboratório de Poços de Caldas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); a doutora em Ciências Yula Merola, coordenadora da Divisão de Assistência Farmacêutica de Poços de Caldas-MG; e o oncologista do Hospital Sírio Libanês e na Northwestern University Feinberg nos Estados Unidos, Marcelo Cruz.

clique aqui para assistir novamente a apresentação.



Gabriella Arraes e Lucas Alcântara Assessoria de Comunicação
Serviço Geológico do Brasil - SGB-CPRM
asscom@cprm.gov.br

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